38 anos depois, ainda não consigo acreditar que Roger Ebert odiou esse clássico do terror com 70% no Rotten Tomatoes

Hellraiser é um Clássico do Horror

Hoje, a obra de 1987 é amplamente considerada um marco do cinema de terror. A análise sangrenta do sadomasoquismo pode não ser a predileção de todos, tampouco o filme favorito de todos os aficionados pelo gênero. Contudo, o tempo elevou essa obra controversa a patamares que nem se podia imaginar no lançamento, e muitos críticos já reconheceram seu potencial exemplar.

Kirsty Cotton olha surpresa em 1987

Enquanto alguns predecessores acabaram se desgastando com o tempo, Hellraiser mantém com firmeza seu domínio nauseante sobre o público moderno. Parte desse fascínio vem, sem dúvida, dos seus personagens grotescos. Poucos monstros são tão grotescamente icônicos quanto “Pinhead” – canonicalmente creditado como “Cenobita Principal” – e sua trupe de ghouls sangrentos. Ainda assim, esses mutantes não podem levar todo o crédito.

Doug Bradley como o Cenobita 'Pinhead'

Hellraiser também conta com uma narrativa robusta e memorável, que tem início com aquela icônica caixa de quebra-cabeça. Contra todos os conselhos sensatos, o hedonista Frank Cotton abre o objeto amaldiçoado e é ceifado por seus poderes. Sua casa é, então, herdada pelo seu irmão Larry, que toma a imprudente decisão de se mudar com sua família.

De muitas maneiras, o enredo pode parecer trivial. Não há nada de particularmente novo em ambientar um filme de terror em uma “casa infernal”. De fato, alguns anos antes de Hellraiser, The Amityville Horror já apresentava uma narrativa semelhante. Outros exemplos contemporâneos de casas assombradas ou amaldiçoadas incluem The Evil, The House Where Evil Dwells e Hell Night.

No entanto, Hellraiser eleva o terror depravado a um novo patamar. Seus Cenobitas surpreendentemente articulados oferecem ao público um inimigo que, na época, era inexistente. Sua inteligência gera um horror ainda maior do que suas grotescas aparências. Enquanto outros vilões de terror são assassinos sem cérebro, os Cenobitas entendem perfeitamente seus papéis e chegam a apreciar a execução de suas funções. Essa camada adicional de caráter é o que diferencia Hellraiser de muitos de seus concorrentes, mantendo o filme com um diferencial nas análises modernas.

  • Tanto o “Chatterer” quanto o “Butterball” Cenobita tiveram falas no roteiro original; entretanto, a equipe logo percebeu que a pesada maquiagem dos atores tornava impossível uma fala inteligível, fazendo com que suas réplicas fossem repassadas para a Cenobita Feminina.
  • Apesar do status icônico do Cenobita Principal, sua natureza articulada não foi inicialmente bem recebida. Os produtores pressionaram Clive Barker a transformar “Pinhead” num assassino espirituoso, similar a Freddy Krueger, de A Nightmare on Elm Street, enquanto outros sugeriram que ele adotasse o perfil silencioso de antagonistas como Voorhees.

Não havia como Roger Ebert prever que Hellraiser se tornaria a sensação que é hoje. A crítica de Ebert, escrita apenas oito dias após a estreia do filme em Londres, em 18 de setembro de 1987, mostrou que ele não era o único a opinar sobre a obra – chegando a mencionar a crítica de Stephen King, que elogiou a estreia de Barker afirmando que era “o futuro do gênero terror.”

Entretanto, enquanto as opiniões dissidentes de Ebert costumam favorecer filmes impopulares, sua avaliação de Hellraiser foi um equívoco surpreendentemente grande. Ele resumiu o agora icônico filme como “um filme sem inteligência, estilo ou razão” e o criticou por sua “falência de imaginação”, parodiando a declaração de King ao afirmar que Hellraiser era “o futuro de tramas implausíveis.”

É uma crítica surpreendentemente negativa vinda de um crítico que, por vezes, concordava com o público. Talvez parte dessa rejeição se deva ao fato de Hellraiser desafiar abertamente os ideais narrativos tradicionais. O filme de Barker rompe com a então popular imagem de um vilão malvado e simpático, optando por abraçar o mal em estado puro – uma escolha que exige do público uma suspensão de descrença um pouco maior e confere um toque único aos seus antagonistas.

Embora a ambientação de Hellraiser – a clássica “casa dos horrores” – seja um tanto clichê, isso não diminui seu valor intrínseco como obra definidora do gênero. Com sua ousadia, Barker mostrou que era possível ser diferente. Enquanto outros vilões assassinavam suas vítimas de forma banal, os Cenobitas de Hellraiser realizavam assassinatos com uma certa “civilização”. Apesar de suas aparências monstruosas, são assassinos articulados que transcendem suas inspirações sadomasoquistas, representando um terror que pode estar à espreita em qualquer esquina. Esse elemento de familiaridade é o que confere a Hellraiser seu impacto quase imortal.

Pôster de Hellraiser

Hellraiser

Data de Lançamento: 18 de setembro de 1987

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