
A Marvel Comics publicou diversos crossovers notáveis ao longo das décadas, com o primeiro deles sendo o clássico dos anos 1980, Secret Wars. Desde então, vários eventos ultrapassaram em qualidade aquela história original, explorando de forma ousada o conceito de um evento que abrange toda a empresa. Infelizmente, nem todos foram bem-sucedidos, e o pior deles acabou sendo uma sequência claramente motivada por interesses financeiros, dando continuidade a uma história já polêmica.
Civil War II é talvez o evento moderno da Marvel Comics mais odiado e um dos piores já publicados pela companhia. O enredo foi feito de forma ostensivamente para se ligar à adaptação cinematográfica do seu antecessor, e essa necessidade forçada transpareceu na qualidade final da obra. O pior de tudo foi o equilíbrio duvidoso entre ser facilmente ignorado e, ao mesmo tempo, gerar grandes repercussões para o Universo Marvel, especialmente no que diz respeito a uma heroína que, até hoje, tem sua imagem bastante abalada.
Lançado em 2016, o evento Civil War II chegou dez anos após sua antecedente. Assim como o original, seu enredo também tentou se apoiar em um elemento temático atual, fazendo uma analogia com questões contemporâneas. Enquanto o primeiro fazia uma alusão à guerra ao terror e à legislação do Patriot Act do governo dos Estados Unidos – comparando as ações do Homem de Ferro às decisões da presidência de George W. Bush – o segundo brincou com a ideia dos “crimes de pensamento” e de uma postura extrema proativa no combate ao terrorismo.
Nessa nova narrativa, os dois lados eram compostos por heróis opostos entre si. De um lado, o Homem de Ferro se posicionava contra o uso de “futuros” não testados como um mapa definitivo do que estava por vir. Do outro, a Capitã Marvel (Carol Danvers) defendia, com unhas e dentes, a implementação desses “futuros”. Isso incluía tentativas de capturar o Homem-Aranha Miles Morales – motivada por uma visão em que ele matava o Capitão América – e a criação de um sistema repressivo, quase semelhante à Gestapo, para evitar que tais futuros se realizassem. Ao final, contudo, toda essa disputa se revelou inútil quando Ulysses se uniu ao ser cósmico Eternity, e o ápice da trama se resumiu, de fato, à aparente morte do Homem de Ferro.
Por que Civil War II não Funcionou como História

Muitos compararam Civil War II ao enredo do filme Minority Report, em que um dos lados dos heróis trabalha para impedir desastres e crimes antes mesmo de acontecerem. Embora a ideia, por si só, não seja ruim – e possa ser comparada a equipes mais sombrias, como The Authority ou Stormwatch, ou mesmo à versão original dos Ultimates – ela também abre caminho para que os personagens extrapolem seus limites, especialmente em universos compartilhados onde o status quo é fundamental para a continuidade das histórias.
Se essa for a direção escolhida, é imprescindível que ambos os lados sejam retratados de forma equilibrada e plausível, evitando que o drama se torne unilateral ou caricatural. Infelizmente, esse não foi o caso em Civil War II, que acabou sendo uma versão ainda pior do seu predecessor em vários aspectos.
Um exemplo disso foi a cena em que Gavião Arqueiro mata Bruce Banner, o alter ego do Incrível Hulk – um acontecimento completamente irrelevante para a trama principal. Embora esse ato tenha acabado dando origem à aclamada série em quadrinhos Immortal Hulk, a maior parte da narrativa de Civil War II foi ignorada. Paralelamente, mesmo com outras tramas envolvendo o Hulk, esse evento marcou o ponto mais baixo para uma heroína e se mostrou um dos piores exemplos de uma grande ideia da Marvel saindo pela culatra.
Civil War II Eliminou Qualquer Chance de Popularidade para Carol Danvers
O pior foi que muitas dessas heroínas faziam parte dos X-Men, um dos maiores grupos da Marvel. Contudo, o foco nessa propriedade foi diminuindo, já que a Marvel Studios, na época, não detinha os direitos cinematográficos dos X-Men. Dessa forma, a Capitã Marvel foi posicionada em destaque mais por uma estratégia de marketing do que por popularidade ou naturalidade orgânica do personagem, o que levou alguns fãs a rejeitarem essa ênfase repentina.
Em 2016, Civil War II atingiu seu ponto mais crítico ao assassinar a personalidade de Carol Danvers, reforçando ainda mais o desgosto por sua presença exacerbada. Elementos que já haviam sido explorados em aparições anteriores foram levados ao extremo, transformando a heroína em uma executora autoritária que buscava prender adolescentes com base em visões distorcidas. Mesmo sendo escrita de forma a torná-la pouco cativante, a narrativa insistia em posicioná-la como se estivesse absolutamente certa.
Essa abordagem refletia, na verdade, a qualidade medíocre dos quadrinhos da personagem naquele período. Comparada, inclusive, a outras obras, esse arco acabou sendo pouco comentado e sem impacto significativo nas vendas. Após seu término, o título foi relançado e passou a ser escrito por Alyssa Wong – uma experiência que durou pouco – e, desde então, Carol Danvers ficou sem um título solo, especialmente após o insucesso do filme de 2023 The Marvels.
O impacto da história foi sentido de forma tanto discreta quanto marcante, principalmente porque as edições posteriores do Homem de Ferro tiveram que dedicar tempo para lidar com as “mortes” de Tony Stark (o próprio Homem de Ferro) e de James Rhodes. Mesmo não sendo tão grandioso quanto seu antecessor, Civil War II continua sendo lembrado como uma das piores histórias da Marvel na última década. Já se passaram quase 10 anos, mas o desdém por esse evento não diminuiu, evidenciando o quão mal concebida a ideia foi desde o início e o quão decepcionante foi sua execução.


Adriana Kvits é uma amante fervorosa da cultura japonesa, com um profundo amor por animes e mangás. Sua dedicação em explorar e compartilhar as complexidades dessas narrativas a torna uma voz apaixonada e uma guia confiável no emocionante mundo otaku.






