2024 foi um ano absolutamente fantástico para o cinema. O ano trouxe de tudo, desde sucessos de bilheteria como Dune: Part Two e Wicked até obras dramáticas de baixo orçamento como Anora e Challengers. Contudo, o que tornou 2024 um ano tão especial foi a surpreendente quantidade de surpresas inesperadas. A maior delas, de longe, foi a ascensão meteórica de The Substance, de Coralie Fargeat. Esse inusitado sucesso no subgênero do horror corporal parece ter tocado todos, desde os amantes de filmes cult até os votantes do Oscar, acumulando nada menos que cinco indicações.
Apesar de The Substance ser amplamente aclamado, um pequeno grupo de fãs sabe que uma obra superior dentro do subgênero surgiu dois anos antes, do verdadeiro precursor do horror corporal. É impossível criar um filme de horror corporal — ou mesmo um filme de terror em geral — sem traçar comparações com David Cronenberg. Com quase seis décadas lançando filmes de horror envolventes, Cronenberg lançou em 2022 uma de suas melhores obras, que passou despercebida na época. Crimes of the Future pode vir a ser reavaliado de forma grandiosa se os fervorosos fãs de The Substance descobrirem sua genialidade.
Sobre o Enredo de Crimes of the Future

Crimes of the Future compartilha o título com o filme homônimo de David Cronenberg de 1970, mas as tramas não têm nenhuma conexão entre si.
Após um longo período sem filmes de horror corporal — desde o thriller estrelado por Jude Law, eXistenZ (1999) — Cronenberg retorna ao subgênero sem perder o ritmo. Embora Crimes of the Future não tenha sido um favorito da crítica ou um sucesso em premiações, ele cumpriu exatamente o que se propôs a fazer. O filme é assustador, perturbador e repugnante, mas também profundamente emocional e intelectualmente estimulante. Ao combinar suas raízes no horror corporal com uma exploração de temas intelectuais e emocionais típicos do novo milênio, o resultado é uma verdadeira obra-prima.
A trama se passa em um futuro distópico onde a humanidade começou a passar por uma evolução acelerada. Esse desenvolvimento evolutivo bizarro é marcado pelo surgimento de novos órgãos jamais vistos, os quais são coletados e categorizados pelo governo. A história segue principalmente Saul Tenser, um ousado artista performático que se vê no meio de um inexplicável desenvolvimento orgânico. Inspirado por essas mudanças, Saul lança um projeto de performances extremamente sanguinolentas junto com sua parceira Caprice, transformando a remoção cirúrgica desses órgãos em espetáculos artísticos clandestinos. Porém, à medida que ele resiste a essa evolução através de suas intervenções, um sofrimento intenso e quase inevitável começa a surgir.
Crimes of the Future Tem um Significado Mais Profundo

Por mais estranho que seja o conceito de Crimes of the Future, o filme se mostra uma obra de ficção científica de alta qualidade, acessível a diversos tipos de espectadores. Apesar de apresentar um universo com uma história de fundo elaborada, Cronenberg mantém o foco na narrativa intrigante de Saul, sem se desviar muito do enredo principal.
Como é de se esperar em um filme de Cronenberg, Crimes of the Future está repleto de temas que remetem a debates sobre rebeldia, erotismo e os limites que a arte pode atingir. Além disso, o arco emocional de Saul acrescenta camadas adicionais à interpretação do filme, permitindo que a mensagem seja lida de múltiplas maneiras. As referências ao papel do governo e sua relutância em se adaptar às mudanças levam alguns espectadores a traçar paralelos com questões políticas contemporâneas, embora o filme mantenha uma abertura para diversas interpretações.
Fãs de The Substance Vão Adorar Crimes of the Future
Um dos filmes favoritos de Coralie Fargeat é Naked Lunch, de David Cronenberg.
Uma diferença marcante entre esses dois filmes é que The Substance apresenta elementos de comédia, transformando subtexto em humor de forma ousada. O debate intenso sobre se os filmes deveriam ser sutis ou explícitos começou com Saltburn, de Emerald Fennell, levando muitos espectadores a afirmarem que não precisam de sutilezas em suas obras de terror. The Substance abraçou essa tendência e a levou ao extremo.
Enquanto The Substance surgiu inesperadamente e roubou os holofotes em 2024, Crimes of the Future permanece como um filme cult assombrado pelo esquecimento. Fãs cativados pela ousada exploração da autoaceitação e da identidade complicada em The Substance devem se desafiar assistindo ao retorno de Cronenberg ao horror corporal. Embora o filme seja excitante por si só, ele oferece uma alternativa mais grotesca, meditativa e provocativa, fazendo jus ao legado do pioneiro do gênero.

Adriana Kvits é uma amante fervorosa da cultura japonesa, com um profundo amor por animes e mangás. Sua dedicação em explorar e compartilhar as complexidades dessas narrativas a torna uma voz apaixonada e uma guia confiável no emocionante mundo otaku.



