A Franquia de Filmes de Clint Eastwood Onde Cada Filme É 10/10

A trilogia Dollars de Clint Eastwood é uma das poucas em que cada filme se consagra como um clássico. Os faroestes já vinham perdendo espaço quando a década de 1960 chegou, com o público jovem sendo atraído por histórias mais contemporâneas e o gênero tendo sido saturado por diversos programas de TV, como Gunsmoke e Rawhide.
O próprio Clint passou oito anos produtivos nesse último programa, embora seu personagem bonzinho despertasse nele o desejo de interpretar papéis mais sombrios. Mal sabia ele que sua participação na trilogia Dollars de Sergio Leone não só reinventaria um gênero em declínio, como o impulsionaria ao status de ícone do cinema.
No primeiro filme, Por um Punhado de Dólares, que se inspirou em Yojimbo de Akira Kurosawa, o baixo orçamento não impediu que a produção surgisse tão fresca e criativa, praticamente dando origem ao subgênero spaghetti western. Eastwood não esperava que o filme o levasse a grandes feitos e imaginava que, se não alcançasse o sucesso, dificilmente seria exibido fora da Itália.

O icônico Homem Sem Nome cativou o público mundial instantaneamente, estabelecendo a persona forte e silenciosa de Clint. Leone não planejava criar uma trilogia, mas o sucesso de Por um Punhado de Dólares gerou demanda por uma sequência, algo que o diretor prontamente aceitou.
Enquanto muitas trilogias necessariamente apresentam pelo menos uma parte decepcionante — pense em O Poderoso Chefão, cuja terceira parte é frequentemente considerada uma decepção, ou mesmo em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, um desfecho sólido, porém imperfeito — a trilogia Dollars de Leone é a rara exceção, em que cada filme brilha por mérito próprio.
Por um Punhado de Dólares pode ser considerado um pouco rústico devido ao orçamento modesto, mas é inegavelmente um conto faroeste estiloso e emocionante. Eastwood encarna o verdadeiro significado do “cool”, o filme quebra gloriosamente as supostas regras do gênero e, ao mesmo tempo, Leone transforma um cenário sombrio em algo de extraordinária beleza. Ainda que haja uma escassez de profundidade em termos de desenvolvimento de personagens, essa característica confere à obra uma leveza bastante bem-vinda.
Poder-se-ia até argumentar que Por Uns Dólares a Mais é o melhor do trio, com Leone refinando os elementos que funcionaram na primeira produção. Esta sequência introduz uma narrativa mais carregada de emoção, principalmente com a chegada do Coronel Mortimer, interpretado por Lee Van Cleef, em busca de vingança.
Sem dúvida, O Bom, o Mau e o Feio é o título mais celebrado do grupo. Desde a abertura, com a icônica trilha sonora de Ennio Morricone, até o emocionante confronto final em um cemitério, o filme é puro cinema. Trata-se de uma épica violenta em que três homens sem escrúpulos caçam ouro em meio aos horrores da Guerra Civil.
No terceiro e derradeiro filme, Leone está no pleno comando de sua arte. A habilidade na composição das cenas e dos enquadramentos é impressionante, e Eli Wallach rouba todas as cenas com sua interpretação astuta de Tuco. Se alguém busca um ponto de partida para se aprofundar nos spaghetti westerns, O Bom, o Mau e o Feio é, sem dúvida, a melhor porta de entrada.
Clint Eastwood Poderia Ter Sido Excluído de O Bom, o Mau e o Feio

Por esse motivo, Clint ficou impaciente com o que considerava a abordagem indulgente de Leone na realização dos filmes da trilogia Dollars. O diretor italiano precisava de tempo para compor seus planos de cena, o que deixava o astro cada vez mais frustrado com as esperas, tornando-o relutante em se comprometer com uma terceira produção.
Segundo Luciano Vincenzoni, co-roteirista de O Bom, o Mau e o Feio, Leone chegou a ficar tão irritado com a postura de Eastwood que cogitou substituí-lo por Charles Bronson — ideia que fazia sentido, já que Bronson havia sido considerado anteriormente para Por um Punhado de Dólares. Leone chegou inclusive a pensar em Steve McQueen para o papel de Blondie em O Bom, o Mau e o Feio.
A Série Dollars é a Única Trilogia em que Cada Filme Supera o Anterior

Além de ser praticamente perfeita, a série Dollars é um dos raros exemplos em que cada filme supera o anterior. Observa-se um salto significativo em termos de técnica e ambição entre o primeiro e o segundo filmes, e novamente entre o segundo e o terceiro. Enquanto Por um Punhado de Dólares tem uma escala mais modesta, o desfecho se apresenta como uma verdadeira epopeia.
Quentin Tarantino expressou essa ideia com elegância ao participar do Club Random Podcast, afirmando que a franquia Dollars “faz o que nenhuma outra trilogia jamais foi capaz de fazer”, já que cada filme se constrói sobre o anterior, adicionando profundidade e refinamento.
Como contraste com a trilogia Dollars, vale lembrar a outra grande franquia de Clint, Dirty Harry. Enquanto o primeiro filme é um clássico, o segundo, Magnum Force, é bom, e The Enforcer se assemelha a um procedural típico dos anos 70, com doses extras de violência. Ainda assim, o quarto filme de Eastwood, Sudden Impact, funciona como um bom complemento ao original.

Adriana Kvits é uma amante fervorosa da cultura japonesa, com um profundo amor por animes e mangás. Sua dedicação em explorar e compartilhar as complexidades dessas narrativas a torna uma voz apaixonada e uma guia confiável no emocionante mundo otaku.


