A adaptação cheia de ação de Denzel Washington e Mark Wahlberg perdeu o que tornou a história em quadrinhos excelente

2 Guns: O blockbuster de ação que perdeu a essência do quadrinho

O filme de 2013 “2 Guns” foi um sucesso de bilheteria, conquistando o público com seu enredo cheio de ação e pela química inegável entre Denzel Washington e Mark Wahlberg. Apesar do apelo popular, o longa se afastou do que tornava o quadrinho original tão interessante – aquele humor sutil e uma crítica social mordaz que evidenciava a ironia de um sistema autodestrutivo.

Para ser justo, “2 Guns” segue os principais elementos do material original. O problema é que, para se transformar em um grande blockbuster, o filme exagera nas sequências de ação e nos diálogos triviais, deixando de lado o propósito original do quadrinho: retratar, de forma trágica e irônica, a estupidez de um sistema que se volta contra si mesmo.

Mesmo não figurando entre os melhores filmes de ação recentes ou entre as melhores adaptações de quadrinhos, “2 Guns” é uma obra divertida. A escolha de Denzel Washington e Mark Wahlberg para os papéis principais foi acertada, já que os dois conseguem transmitir uma autêntica química que é essencial para um clássico policial de parceiros.

Washington interpreta Bobby Trench, um agente da DEA infiltrado que busca desmascarar Manny “Papi” Greco, líder de um cartel de drogas. Ele é um cara tranquilo, com um certo charme despojado, mas que não tem paciência para bobagens. Enquanto isso, Wahlberg dá vida a Michael “Stig” Stigman, um oficial da Marinha otimista de forma absurda, que também atua undercover por ordem de seus superiores. Sem saberem que ambos são agentes governamentais, eles se unem para roubar um banco, cada um acreditando que o outro é o criminoso.

Heróis de ação engraçados

Um elenco repleto de estrelas torna “2 Guns” ainda mais interessante. Além de Washington e Wahlberg, Bill Paxton aparece como um agente corrupto da CIA, Paula Patton vive a agente da DEA Deb – interesse romântico de Bobby –, e James Marsden interpreta o Comandante da Marinha Harold Quince, namorado de Deb e antagonista de Stig. Edward James Olmos também integra o elenco como Greco, e Patrick Fishchler faz uma breve participação como um veterinário que trata Bobby após um disparo de Stig.

Embora o filme não tenha sido revolucionário, ele agradou bastante o público com suas reviravoltas, traições e humor inesperado. Com sequências dinâmicas e um roteiro repleto de surpresas, “2 Guns” arrecadou aproximadamente US$ 130 milhões internacionalmente, com um orçamento de US$ 60 milhões.

O quadrinho 2 Guns de Steven Grant é uma sátira inteligente

Capa do quadrinho 2 Guns

Publicado em 2007, o quadrinho “2 Guns”, criado pelo escritor Steven Grant e pelo ilustrador Mateus Santolouco, é, antes de tudo, uma sátira. Assim como o filme, ele acompanha Bobby e Steadman (conhecido como Stigman na adaptação cinematográfica) enquanto enfrentam operações clandestinas em meio a caos e traições. Contudo, os protagonistas são retratados como estereótipos dos clichês policiais – personagens tão absurdos que, além de receberem o apoio do público, também provocam risos pela própria exageração.

Nesse formato, os personagens dispõem de menos armamento e suas aventuras são mais contidas. As cenas de ação ocorrem de forma breve e objetiva, e o risco é elevado ao ponto de mortes ocorrerem em poucos quadros.

Imagem dividida ilustrando personagens de ação

O quadrinho também sabe dosar o humor. O diálogo entre Bobby e Stig, embora presente em ambos os formatos, é tratado com mais sutileza na página, fazendo com que o riso surja não de piadas forçadas, mas do absurdo das situações em que se encontram. Diferente do filme, a obra impressa dispensa os efeitos especiais chamativos e as dinâmicas de fan service, apostando numa arte discreta, com cores neutras e traços clássicos que remetem aos antigos quadrinhos de detetive. O enredo é sólido o suficiente para encantar o leitor sem precisar de artifícios baratos.

O filme 2 Guns não foi tão bom quanto o quadrinho

Enquanto o quadrinho não depende da amizade exagerada entre Bobby e Stig para sustentar sua sátira, o filme se apoia na improvisação dos diálogos bem-humorados de seus protagonistas. Essa abordagem faz com que as conversas se prolonguem de forma desnecessária, mais focadas em piadas superficiais do que em contar uma história consistente.

O material original é um dos quadrinhos mais divertidos, mas sabe a hora de dosar o humor. Grande parte das piadas nasce justamente do caráter cafona dos personagens, fazendo com que o leitor ria deles – e não com eles –, o que é um contraste marcante em relação à adaptação cinematográfica. Enquanto o quadrinho aposta na ironia, o filme busca fazer com que o público se encante pelos personagens, distanciando-se da abordagem satírica da obra original.

A representação exagerada dos personagens, combinada com sequências explosivas e diálogos intermináveis, prejudica a percepção da paródia que o quadrinho executa com tanta precisão. Dois erros marcantes acabam enfraquecendo essa sátira: a suavização do caráter de Deb e as mudanças no desfecho.

Em ambas as versões, Deb é retratada como parceira, supervisora e interesse romântico de Bobby. No entanto, o filme opta por uma abordagem mais sentimental, fazendo parecer que Deb é verdadeiramente apaixonada por Bobby, enquanto no quadrinho sua personagem é impiedosa e utiliza Bobby sem hesitação. No longa, ela chega a se sacrificar para salvar Bobby, culminando em sua morte pelas mãos de Greco.

O final dos quadrinhos enfatiza o fato de que, apesar de toda a tragédia e das inúmeras mortes, nada realmente muda – a CIA recupera seu dinheiro e os protagonistas não deixam marca no mundo. Já o filme encerra com um tom positivo: Bobby destrói a maior parte da quantia, de modo que a CIA não consegue recuperá-la, guarda uma parte como reserva e, por fim, ele e Stig planejam continuar monitorando a agência. Essa romantização do enredo elimina a ironia que tornou o quadrinho tão singular, transformando o filme em um blockbuster genérico e previsível.

Personagens de ação e comédia

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